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E é preciso isso tudo

por Maria Rita, em 30.05.14

 

é porque existe o desejo, o olfacto, e o medo,

e os vivos apaixonam-se por outros vivos,

e lembram-se, por vezes, do enorme número de mortos,

e dentro destes há alguns que os fazem desligar a luz e o trabalho,

e o quotidiano aí já não basta,

porque o coração tem em certos dias um orçamento incomportável

E não basta então a mulher que amamos,

nem os filhos

- os que nos vão sobreviver no tempo -

e é preciso sair, e não basta sair para a rua e correr,

é preciso sair dos ossos,

fugir do obrigatório, à casa,

encontrar dentro dos bolsos o bocado de uma carta, de um mapa,

fragmento que possa reconstruir o caminho para a casa da infância

onde Deus era chocolate e o resolvíamos

assim, de uma vez, porque o comíamos

Porque mais tarde crescemos e ganhámos

dinheiro, família, e alguns outros assuntos,

mas perdemos qualquer coisa de que é impossível falar,

de que não sabemos falar.

E é preciso isso tudo,

e por quase tudo o que faltou dizer,

é por isso que é bom, por vezes,

suspender a noite e o coração,

e obrigar o cérebro à paragem surpreendente.

E é por isso que é bom, por vezes,

ocuparmos o corpo no acto de sentar,

e pedir, então, à arte, à literatura, ao teatro,

que nos salve,

por enquanto,

antes de morrermos.

 

 

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publicado às 14:47

De máscara perfeita, e corpo ausente

por Maria Rita, em 24.04.14

 

 Já a luz se apagou do chão do mundo,
deixei de ser mortal a noite inteira;
ofensa grave a minha, que tentei
misturar-me aos duendes na floresta.
De máscara perfeita, e corpo ausente,
a todos enganei, e ninguém nunca
saberia que ainda permaneço
deste lado do tempo onde sou gente.
Não fora o gesto humano de querer-te
como quem, tendo sede, vê na água
o reflexo da mão que a oferece,
seria folha de árvore ou sério gnomo
absorto no silêncio de uma rima
onde a morte cessasse para sempre.

 

 

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publicado às 10:35

A pedra calada, o animal grunhe

por Maria Rita, em 16.04.14

 

a mulher tem a química dos animais e o pólen das plantas,
e da Grande Alma rouba o Apetite para multiplicar as coisas que nascem.
Os contágios são calmos.
Se uma flor voasse perdia o cheiro;
e se o pássaro tivesse aroma de rosa, de certeza seria coxo.
Porque o mundo se organizou todo de uma vez e depois calou-se.
Ficámos nós, sós, e a Filosofia.
A pedra calada, o animal grunhe,
a erva cresce tão lenta que só a vemos quando ela é adulta,
e os cães ladram debaixo do Sol.
Todos somos resíduos imperfeitos
e os organizadores do Baile saíram logo no início,
deixando a Música, mas não os passos.
Por isso tropeçamos,
partimos a unha má e boa,
apaixonamo-nos por uma mulher e depois já é outra,
e, no Fundo, o que queríamos era sossego e não dançar.
Do que temos medo é da solidão, temos de o reconhecer,
esse caixão que vem antes do tempo,
e nos fecha dos outros e do dia.
O que queremos é sossego;
nem Mistérios nem passos de dança,
apaguem a Música.

 

 

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publicado às 10:00

É...Há sem dúvida

por Maria Rita, em 04.04.14

 

 

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo, 
Nem sequer de tudo ou de nada: 
Cansaço assim mesmo, ele mesmo, 
Cansaço.

A sutileza das sensações inúteis, 
As paixões violentas por coisa nenhuma, 
Os amores intensos por o suposto em alguém, 
Essas coisas todas
Essas e o que falta nelas eternamente
Tudo isso faz um cansaço, 
Este cansaço, 
Cansaço. 

Há sem dúvida quem ame o infinito, 
Há sem dúvida quem deseje o impossível, 
Há sem dúvida quem não queira nada
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles: 
Porque eu amo infinitamente o finito, 
Porque eu desejo impossivelmente o possível, 
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, 
Ou até se não puder ser... 

E o resultado? 
Para eles a vida vivida ou sonhada, 
Para eles o sonho sonhado ou vivido, 
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto... 
Para mim só um grande, um profundo, 
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço, 

Um supremíssimo cansaço, 
Íssimo, íssimo, íssimo, 
Cansaço..

 

 

 

 

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publicado às 14:25

Ó chuva

por Maria Rita, em 31.03.14

 

 

Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,

Dizendo coisas que ninguém entende!

Da tua cantilena se desprende

Um sonho de magia e de pecados.
Dos teus pálidos dedos delicados

Uma alada canção palpita e ascende,

Frases que a nossa boca não aprende,

Murmúrios por caminhos desolados.
Pelo meu rosto branco, sempre frio,

Fazes passar o lúgubre arrepio

Das sensações estranhas, dolorosas…
Talvez um dia entenda o teu mistério…

Quando, inerte, na paz do cemitério,

O meu corpo matar a fome às rosas!

 

 

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publicado às 16:06

É bem certo que existo

por Maria Rita, em 27.03.14

 

 

Que vens contar-me
se não sei ouvir senão o silêncio?
Estou parado no mundo.
Só sei escutar de longe
antigamente ou lá para o futuro.
É bem certo que existo:
chegou-me a vez de escutar.

Que queres que te diga
se não sei nada e desaprendo?
A minha paz é ignorar.
Aprendo a não saber:
que a ciência aprenda comigo
já que não soube ensinar.

O meu alimento é o silêncio do mundo
que fica no alto das montanhas
e não desce á cidade
e sobe às nuvens que andam à procura de forma
antes de desaparecer.

Para que queres que te apareça
se me agrada não ter horas a toda a hora?
A preguiça do céu entrou comigo
e prescindo da realidade como ela prescinde de mim.

Para que me lastimas
se este é o meu auge?!
Eu tive a dita de me terem roubado tudo
menos a minha torre de marfim.
Jamais os invasores levaram consigo as nossas torres de marfim.

Levaram-me o orgulho todo
deixaram-me a memória envenenada
e intacta a torre de marfim.
Só não sei que faça da porta da torre
que dá para donde vim.

 

 

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publicado às 11:51

na cave no meio da minha vida

por Maria Rita, em 26.03.14

 

 

 

A casa agora é feita d'ângulos agudos,

de perguntas, de poços descobertos,

e nós perdemo-nos por dentro d'outros mundos

por portas que se abriram para dentro.

O meu coração repousa
na cave no meio da minha vida
e eu vagueio lá fora entre os sentidos.
Sou eu quem chama, não me ouves bater?

 

 

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publicado às 11:00

Recebíamos o sol como o ponto final recebe uma frase.

por Maria Rita, em 18.03.14

 

 

 

Na infância o sol era um companheiro mais alto,
Que aparecera primeiro no campo de futebol, e aí, parado,
Guardava as costas da baliza e a erva que se tornava quente.
Como se o sol fosse de facto um instrumento de cozinha,
Aperfeiçoado, antigo, mas instrumento, matéria
Que os meninos agarravam com os dedos e cuja
Intensidade podiam por vontade própria regular. 
Por exemplo: quando a luz era excessiva 
Os dedos protegiam os olhos. Outras vezes 
O corpo parecia a conclusão
Natural, instintiva, do calor que vinha de cima:
Recebíamos o sol como o ponto final recebe
Uma frase. Fazia mais sol quando eu tinha seis anos
(quem o fazia?) ou com o tempo e o tédio
Me fui distraindo?


 
 

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publicado às 13:20

Uma porta entreabre-se para o fundo de um grito

por Maria Rita, em 17.03.14

o silêncio tem vozes sem nome
que não possuem sossego até serem ouvidas

a casa que habitamos ecoa memórias
uma porta entreabre-se para o fundo de um grito
como se por um momento tudo regressasse à sua morte

os contornos da terra hesitam em sua posição
um lume mínimo espanta-nos os dedos
e é uma força subtil

algo dentro e fora da casa nos convida à totalidade
porém o fogo reclama ainda o nosso corpo

um passo mais e a solidão será real

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publicado às 09:49



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