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nada visível por agora

por Maria Rita, em 10.02.20

 

passei a manhã e parte da tarde a observar-me no espelho. procurava um indício de morte sobre o rosto. que minuciosa imperceptível tarefa teria ela iniciado durante a noite? nada visível por agora. nada se vislumbra na cor da pele, no movimento das pálpebras ou no húmido dos lábios. doem-me as mãos. um vómito sobe. sinto-me demasiado fraco para suportar o meu próprio peso. se ao menos a morte me prevenisse que chegaria. bastava que me mostrasse um vertiginoso buraco na água, um diáfano sorriso de pássaros ou uma pedra flutuando.

 

 

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publicado às 18:09

sabendo que a vida não terá sido um abismo

por Maria Rita, em 10.09.14

 

Viajar, se não cura a melancolia, pelo menos, purifica. Afasta o espirito do que é supérfluo e inútil; e o corpo reencontra a harmonia perdida — entre o homem e a terra. 
O viajante aprendeu, assim, a cantar a terra, a noite e a luz, os astros, as águas e a treva, os peixes, os pássaros e as plantas. Aprendeu a nomear o mundo.
Separou com uma linha de água o que nele havia de sedentário daquilo que era nómada; sabe que o homem não foi feito para ficar quieto. A sedentarização empobrece-o, seca-lhe o sangue, mata-lhe a lama — estagna o pensamento.
Por tudo isso, o viajante escolheu o lado nómada da linha de água. Vive ali, e canta — sabendo que a vida não terá sido um abismo, se conseguir que o seu canto, ou estilhaços dele, o una de novo ao Universo.

 

 

 

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publicado às 12:14

Adivinho a «glória» amarga do futuro.

por Maria Rita, em 27.08.14

 

 

 

São dez da manhã. Que tédio, que chatice doutro dia que começa decalcado no de ontem. Saúde periclitante, pensamentos periclitantes, café periclitante, sol periclitante, corpo periclitante, etc. periclitante, cinza periclitante. Abismos da alba, paisagem inacessível, sono, mais sono.
Que tédio! Que chatice de vida, que merda de mundo! Que esterco tudo isto! E eu obrigado a estar metido nele até ao pescoço.
Quando é que me levantarei, um dia, muito cedo, e abandonarei tudo?
Ideias sinistras correm-me pela mente, à minha volta, como se fossem miragens. Tomam forma de pequenos cromos flutuantes. Adivinho a «glória» amarga do futuro. A precária eternidade de quem já não é corpo há muito tempo, apenas imagem morta impressão em papel fotográfico

 

 

 

 

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publicado às 10:10

Lentamente os dedos aperfeiçoaram a arte de pararem sussurrantes sobre o corpo...

por Maria Rita, em 18.08.14

 

 

 

 

 

 

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publicado às 11:54

Desconcertante é que tão grande tristeza caiba dentro de tão pequeno peito.

por Maria Rita, em 19.06.14

 

 


 Às vezes morre-se tanto, e tão cedo.

 

 

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publicado às 16:32

Numa nudez terrível que se quebra

por Maria Rita, em 11.06.14

 

 

A vida é sacana. Sobretudo não é aquilo que nos disseram que era.


Por vezes, quando nos sentimos morrer vemos como é disparatado saber que tudo vai acabar. Precisamente quando tínhamos descoberto alguém com quem podíamos falar.


Passamos a vida numa espécie de silêncio, numa nudez terrível que se quebra, ainda que raramente, diante de certas coisas que nos contaram e nos deslumbraram.


Mas é tarde. As coisas que nos deslumbraram eram efémeras, breves. E não se pode voltar atrás.

 

 

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publicado às 14:27

Dormir é muito mais complicado

por Maria Rita, em 04.06.14

 

 

 

Fornicar - pensava Beno -, fornica-se com quem quer que seja ou quem seduzimos e desejamos. Mas dormir, dormir é muito mais complicado, leva tempo até se perder o medo de se entregar o corpo, assim...ao outro.

E a lassidão dos corpos abandonados aos segredos do sono um do outro...é bela!

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publicado às 10:30

vou com a noite à procura da manhã sobre o rio.

por Maria Rita, em 28.05.14

 

 

E é-me indiferente estar aqui. Sempre que posso fujo, fujo no olhar que cegou o meu. Porque eu fujo e vou com tudo aquilo que me chama e me toca. Vou com o azul dos olhos do marçano ali da esquina, vou com as folhas das árvores no Outono da minha rua, vou com a noite à procura da manhã sobre o rio. Vou pelos arranha-céus acima e contemplo dos altos terraços o sono esbranquiçado dos mortos. Vou com o teu corpo que me desgasta a memória doutros corpos e me transforma em esquecimento… vou, vou sempre, pela humidade dos cardos presos em tua boca.

 

 

 

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publicado às 09:45

à beira-mar envelheceu vagarosamente

por Maria Rita, em 26.05.14

 

 

Dizem que a paixão o conheceu 
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros 
senta-se no estremecer da noite 
enumera o que lhe sobejou do adolescente rosto 
turvo pela ligeira náusea da velhice 

conhece a solidão de quem permanece acordado 
quase sempre estendido ao lado do sono 
pressente o suave esvoaçar da idade 
ergue-se para o espelho 
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo 

dizem que vive na transparência do sonho 
à beira-mar envelheceu vagarosamente 
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria 
nenhum ofício cantante 
o tenha convencido a permanecer entre os vivos

 

 

 

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publicado às 11:52

Vai

por Maria Rita, em 24.04.14

 

 

vai até onde ninguém te possa falar ou reconhecer
 
vai por esse campo de crateras extintas

vai por essa porta de água tão vasta quanto a noite deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te e as loucas aveias que o ácido enferrujou erguerem-se na vertigem do voo

deixa que o Outono traga os pássaros e as abelhas para pernoitarem na doçura do teu breve coração
 
ouve-me que o dia te seja limpo e para lá da pele constrói o arco de sala morada eterna
 
o mar por onde fugirá o etéreo visitante desta noite.

 

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publicado às 15:54



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