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Não é anáfora suada

09.09.16

 

Há uma mulher dentro de mim que não é gramática decomposta nem acento circunflexo. Não é metáfora exagerada, nem vegetação espessa no limite da vírgula. Não é anáfora suada, nem rigor maiúsculo no recuo do parágrafo. Há uma mulher dentro de mim que não é periferia nem superfície transversal. Essa mulher que não outra mulher, esmaga-me as telhas no tecto da boca. Tenho-a calada e encavalitada debaixo das palavras mais fáceis de carcomer. Tenho-a cansada e regrada por cima das feridas menos custosas de sarar. Mas essa mulher que dentro de mim não me permite outra habitação que não esta, não me serena a vontade áspera de romper a madeira dos braços, de moer do úmero a lasca e da acha articular outro galho maior. Há uma mulher dentro de mim que não me reconhece como sua. Há uma mulher dentro de mim que míngua encolhida no cavo do medo. Há uma mulher dentro de mim que ama uma mulher insuficiente de si mesma.

 

 

 

 

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Na mulher, o físico verbaliza-se no desarranjo

04.09.14

 

A anatomia da mulher é intercadência ou cissão de árvore. Os seus seios, como dois pomos sazonais inaugurados no hemisfério do dorso, principiam-se com o acúleo do peito lactente no cedro da minha boca. O seio esquerdo tumesce cerúleo de tão azul, o diâmetro recua esfriado na bainha das nervuras. Os seus músculos textualizam-se de forma e som, hirtos, despedaçam a elasticidade cervical dos meus vértices. A pele gradua-se num esmalte vítreo de luz, fixa-se nas cavilhas que lhe prendem a argamassa à semelhança de um rosto. Na mulher, o físico verbaliza-se no desarranjo dos nervos, na mulher, a geometria é descontínua se a matéria se desfaz magra de resina. A anatomia da mulher é perfloração ou fissão de pedra. Os seus seios, como dois seixos salmourados nos ferros do peito, incham-se de sal na sucção dos meus beiços. A anatomia da mulher é aceleração de corpo subida à altura da expectativa mais distante. Mas a sua fisionomia é táctil, não possui matriz ou molde, enxuga-se na terra e só da terra o musgo lhe devolve outro princípio de mulher.

 

 

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O vagar da mulher contrai cada pretérito à milésima

11.08.14

 

O vagar da mulher é dissemelhante do vagar dos homens e das coisas. O vagar da mulher contrai cada pretérito à milésima, ocupando cada milímetro pela sexagésima parte do segundo mais breve. O vagar de qualquer mulher dilata-se em mil partes desiguais a um todo. A mulher não executa a presença desmembrada das coisas, sem antes as invocar como domicílio próprio. A mulher segura de frente os edifícios caiados na tijoleira das costas, suporta as urbes fixas no eixo dos seus pulsos, faísca pelas luminárias ausentes de centelhas já extintas. O vagar da mulher nunca descuida a largura do antecedente, sem antes se esvaziar na obsessão intermitente do perímetro do verbo mais presente. A mulher é, igualmente e inteiramente mais mulher, na suspensão variável dos homens e das coisas. Os seus ângulos flectem-se na equidade ímpar das esperas. As suas mãos inclinam-se no ponto equidistante do vazio. A mulher cumpre o tempo a tempo inteiro, sem suprimir a duração menor da unidade. O vagar de cada mulher é célere e voluntário, e em tudo se apressa à lentidão demorada de um vaso caído.

 

 

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A precisão textual de cada osso é atemporal.

11.04.14

 

A constituição da mulher é desconstrução de corpo, amor dividido em dois terços longos de osso, homem ou mulher intervalado nos tecidos da substância maior. O amor liquefaz-se nas estalactites da sua boca, suspenso no calcário da saliva, interpõe-se entre o eco e a claridade húmida da língua. Os seus maxilares movem-se como guindastes, a seco, mastigam os molares em cacos de tensão. A precisão textual de cada osso é atemporal, macera-se de dentes cerrados. O cálcio arde-lhe de vermelho se o amor se alarga em massa inflamável. À mulher, outra mulher cabe-lhe na ruptura das vértebras, caule que perfura o novelo inferior do pulmão. À mulher, outra mulher cabe-lhe no abcesso do peito, metal alcalino de degustação salina. Ao amor, essa mulher chega-lhe hermética, deposta de tendões que lhe segurem a carne na vertical. À palavra, pouco lhe importa o epicentro da sílaba ou a cerâmica da tónica. Ao amor, nunca lhe satisfaz a fractura do fonema ou a dentição do silêncio. No amor, a mulher vaza inteira se a serradura lhe lacera as dobradiças do corpo. Porque na mulher, o amor não é ruído seco ou opaco, é arritmia surda no ventrículo mais defeso.

 

 

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