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A intensidade com que se é esmagado não importa, de facto o que importa é a intensidade que nos resta depois de sermos esmagados.

23.07.14

 

 

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E é preciso isso tudo

30.05.14

 

é porque existe o desejo, o olfacto, e o medo,

e os vivos apaixonam-se por outros vivos,

e lembram-se, por vezes, do enorme número de mortos,

e dentro destes há alguns que os fazem desligar a luz e o trabalho,

e o quotidiano aí já não basta,

porque o coração tem em certos dias um orçamento incomportável

E não basta então a mulher que amamos,

nem os filhos

- os que nos vão sobreviver no tempo -

e é preciso sair, e não basta sair para a rua e correr,

é preciso sair dos ossos,

fugir do obrigatório, à casa,

encontrar dentro dos bolsos o bocado de uma carta, de um mapa,

fragmento que possa reconstruir o caminho para a casa da infância

onde Deus era chocolate e o resolvíamos

assim, de uma vez, porque o comíamos

Porque mais tarde crescemos e ganhámos

dinheiro, família, e alguns outros assuntos,

mas perdemos qualquer coisa de que é impossível falar,

de que não sabemos falar.

E é preciso isso tudo,

e por quase tudo o que faltou dizer,

é por isso que é bom, por vezes,

suspender a noite e o coração,

e obrigar o cérebro à paragem surpreendente.

E é por isso que é bom, por vezes,

ocuparmos o corpo no acto de sentar,

e pedir, então, à arte, à literatura, ao teatro,

que nos salve,

por enquanto,

antes de morrermos.

 

 

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As caixas são tantas que ninguém lhes dá importância.

25.03.14

 

 

Quem comete um erro é excluído; é fechado dentro de uma caixa. Quem está fora vê apenas a caixa. Mas quem está fechado, excluído, consegue ver cá para fora. Vê tudo, vê-nos a todos. 
Em cada compartimento há dezenas de caixas. Milhares de caixas por todo o lado. A maior parte delas vazia. Outras têm lá dentro pessoas excluídas. Ninguém sabe quais as caixas que têm pessoas. 
As caixas são tantas que ninguém lhes dá importância. Pode estar lá uma pessoa, até a que amas, mas nem olhas. Já não produzem efeito. Passas por elas centenas de vezes. 

 

 

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Recebíamos o sol como o ponto final recebe uma frase.

18.03.14

 

 

 

Na infância o sol era um companheiro mais alto,
Que aparecera primeiro no campo de futebol, e aí, parado,
Guardava as costas da baliza e a erva que se tornava quente.
Como se o sol fosse de facto um instrumento de cozinha,
Aperfeiçoado, antigo, mas instrumento, matéria
Que os meninos agarravam com os dedos e cuja
Intensidade podiam por vontade própria regular. 
Por exemplo: quando a luz era excessiva 
Os dedos protegiam os olhos. Outras vezes 
O corpo parecia a conclusão
Natural, instintiva, do calor que vinha de cima:
Recebíamos o sol como o ponto final recebe
Uma frase. Fazia mais sol quando eu tinha seis anos
(quem o fazia?) ou com o tempo e o tédio
Me fui distraindo?


 
 

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