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Como eles sabem de filosofia ...

por Maria Rita, em 25.07.14

 

 

 

No café trazem-me um copo com água como se ele resolvesse todos os meus problemas. É ridículo - penso - não há saída. No entanto, depois de beber a água fico sem sede. E a sensação exclusiva do organismo acalma-me por momentos. Como eles sabem de filosofia - penso - e regresso, logo a seguir, à angústia.

 

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publicado às 11:00

E separar é, em parte, ser lúcido.

por Maria Rita, em 23.06.14

 

 

Entre outros efeitos, a beleza, quando enfrentada, desde que não ultrapasse certos limites suportáveis, diminui o medo e a desorientação que por vezes se apoderam de um homem só. Poderás não saber onde estás, com exactidão, no mapa - quer o geográfico quer aquele, mais privado, onde te posicionas em relação aos outros - mas, pelo menos, estás frente a uma coisa bela - uma mulher, um animal, outro homem; um edifício. Não tens tudo, claro - nunca ninguém o teve -, contudo podes pelo menos garantir a ti próprio que não estás louco, e eis a prova: como alguém no lixo separa diferentes materiais - garrafas velhas de restos de comida -, tu separas o belo do que não o é. E separar é, em parte, ser lúcido.

 

 

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publicado às 10:05

E é preciso isso tudo,

por Maria Rita, em 19.06.14

 

 é porque existe o desejo, o olfacto, e o medo,
e os vivos apaixonam-se por outros vivos,
e lembram-se, por vezes, do enorme número de mortos,
e dentro destes há alguns que os fazem desligar a luz e o trabalho,
e o quotidiano aí já não basta,
porque o coração tem em certos dias um orçamento incomportável

E não basta então a mulher que amamos,
nem os filhos
- os que nos vão sobreviver no tempo -
e é preciso sair, e não basta sair para a rua e correr,
é preciso sair dos ossos,
fugir do obrigatório, à casa,
encontrar dentro dos bolsos o bocado de uma carta, de um mapa,
fragmento que possa reconstruir o caminho para a casa da infância
onde Deus era chocolate e o resolvíamos
assim, de uma vez, porque o comíamos

Porque mais tarde crescemos e ganhámos
dinheiro, família, e alguns outros assuntos,
mas perdemos qualquer coisa de que é impossível falar,
de que não sabemos falar.

E é preciso isso tudo,
e por quase tudo o que faltou dizer,
é por isso que é bom, por vezes,
suspender a noite e o coração,
e obrigar o cérebro à paragem surpreendente.

E é por isso que é bom, por vezes,
ocuparmos o corpo no acto de sentar,
e pedir, então, à arte, à literatura, ao teatro,
que nos salve,
por enquanto,
antes de morrermos.

 

 

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publicado às 16:36

Estou escondido algures no meio do meu corpo.

por Maria Rita, em 18.06.14

 

 

 

 

 

Às vezes escondo-me no corpo e ninguém me vê. As pessoas falam comigo e não notam que eu não falo com elas. Posso até dizer algumas palavras, posso até exprimir-me num longo discurso, mas a verdade é que não falo com elas. Estou escondido algures no meio do meu corpo.

 

 

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publicado às 11:35

A pedra calada, o animal grunhe

por Maria Rita, em 16.04.14

 

a mulher tem a química dos animais e o pólen das plantas,
e da Grande Alma rouba o Apetite para multiplicar as coisas que nascem.
Os contágios são calmos.
Se uma flor voasse perdia o cheiro;
e se o pássaro tivesse aroma de rosa, de certeza seria coxo.
Porque o mundo se organizou todo de uma vez e depois calou-se.
Ficámos nós, sós, e a Filosofia.
A pedra calada, o animal grunhe,
a erva cresce tão lenta que só a vemos quando ela é adulta,
e os cães ladram debaixo do Sol.
Todos somos resíduos imperfeitos
e os organizadores do Baile saíram logo no início,
deixando a Música, mas não os passos.
Por isso tropeçamos,
partimos a unha má e boa,
apaixonamo-nos por uma mulher e depois já é outra,
e, no Fundo, o que queríamos era sossego e não dançar.
Do que temos medo é da solidão, temos de o reconhecer,
esse caixão que vem antes do tempo,
e nos fecha dos outros e do dia.
O que queremos é sossego;
nem Mistérios nem passos de dança,
apaguem a Música.

 

 

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publicado às 10:00



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