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Tornaram a cortar.

24.08.16

 

 

 

Vou contar uma história. Havia uma rapariga que era maior de um lado que do outro. Cortaram-lhe um pedaço do lado maior: foi de mais. Ficou maior do lado que era dantes mais pequeno. Cortaram. Ficou de novo maior do lado que era primitivamente maior. Tornaram a cortar. Foram cortando e cortando. O objectivo era este: criar um ser normal. Não conseguiam. A rapariga acabou por desaparecer de tão cortada nos dois lados.

 

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medo? só que o sangue vibre ainda na garganta

26.11.14

 

 

não chamem logo as funerárias,
cortem-me as veias dos pulsos pra que me saibam bem morto,
medo? só que o sangue vibre ainda na garganta
e qualquer mão e meia me encha de terra a boca,
sei de quem se tenha erguido, de pura respiração, do fundo da madeira,
saibro, roupa, gotas de orvalho ou cera,
ornatos, espadanas, lágrimas,
últimas musicas,
não é como no escuro o trigo que ressuscita,
sei sim de quem despedaçou as tábuas e ficou entre caos e nada com o sangue alvoraçado nos braços e nas têmporas,
que se não pare nunca entre as matérias intransponíveis,
cortem-me cerce o sangue fresco,
que a terra me não coma vivo

 

 

 

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Ainda não há pessoas.

06.11.14

 

 

 

E o homem sai da casa de que sai pouco, e vai pelos caminhos desertos irradiados da casa. São caminhos poeirentos debaixo do sol, e ele esforça-se por entender a nova mecânica dos espaços e movimentos Não se trata já do lugar de repouso e solidão. Ainda não há pessoas.  Apenas árvores vagas, poalha vaga, pedras e sussurros. Ele desloca-se através da imobilidade do ar, entre a difusão das formas. Move-se agora fora da casa, nos círculos exteriores, cercado por  pequenas coisas, pó, vegetações, insectos fulgurantes. São os caminhos de um homem que se levanta e diz — eu dormi, pensei, mergulhei no meu silêncio; sou forte; preciso sair. O dia é de sol, dia ardente e pesado que faz tremer a terra.

 

 

 

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As feridas saram.

28.10.14

 

 

 

 

Quando a vida se garantiu, o homem só tem de esperar. Come, dorme. As feridas saram. Os homens que o atacaram desaparecem da povoação. O costume. Desaparecem por uns tempos e, quando voltam, tudo esqueceu. O tempo move-se, some-se. À janela do quarto, o homem vê esse movimento do tempo a sumir-se. Olha para os arrozais verdes do verão que passam de uns dias para os outros, mudando, amadurecendo; as laranjas que se tornam amarelas quando a terra arrefece devahar, por dentro; os sombreiros de repente em carna viva.

 

 

 

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E há tanta curiosidade e paixão, tanta ignorância.

23.10.14

 

 

 

Encha o copo. Assim, até cima. Obrigado. Sabe que tive infância? Claro, não sou um sentimental. Pensa que disponho assim de desafogos morais, luxos de espírito, remansos culturais burgueses, para entregar-me a libertinagens da emoção? Tive infância, só isso. Ou seja: falta de jeito, indecisão, uma grande ignorância. Olhava para as coisas: eram fundas, enigmáticas, desorientadoras. Tudo estava cheio, porque o meu coração ávido tudo recebia: era um espaço palpitamente vazio. Agora não, agora estou cheio de pessoas, de lugares, acontecimentos, ideias, decisões. E tudo me parece deserto. Não, voltar à infância, isso nunca. Sofre-se. O mundo é grande. E há tanta curiosidade e paixão, tanta ignorância. Doloroso. Espera-se, está-se nas coisas, cegamente imiscuído nelas. Que angustiosa, esta voracidade, esta fusão analfabeta com a instável matéria do mundo! Agora sou inteligente. Existo, existe universo. Duas realidades distintas, inimigas, inúteis. Sim, deite mais brandy. Sou um bêbado, claro. Que esperava? Que fosse um apostolo, um assassino, um politico, um anjo? Não, sou apenas um bêbado.

 

 

 

 

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Nada me reparte no tempo.

09.10.14

 

 

 

 

 

 Abro-me à unidade da vida - e amo o passado e futuro com um só fervor: completo

 

 

 

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seria o estar vivo.

29.08.14

 

 

 

Caminha pelos anos pétreos, com os pés a decifrarem o empedrado e os degraus do bairro.
Ouve os próprios passos, porque sempre ouviu as pancadas do coração — por aí é que reconhece estar vivo, embora isso seja violento demais e demasiado precipitado para a verdadeira harmonia que, possivelmente, seria o estar vivo.
Mas respira, isso sim, o sangue corre pelas veias e artérias, corrompe-se e purifica-se dentro da confusa massa da sua dor de homem, e anda, ele anda, sobe, desce.
Contudo, os passos que ouve, como se fossem as pancadas fortes do seu sangue, parecem distanciar-se.
Pára.
E os passos continuam, afastando-se.

 

 

 

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Não sei de vidas completas.

19.08.14

 

 

Os inocentes são por assim dizer as musas dos criminosos. Mas há poucos inocentes, não conheço nenhum, e não se busque sobretudo entre as crianças: as crianças são monstruosas, eu sei, fui criança muito tempo, e o meu talento era monstruoso, o talento visitavelmente simples de respirar, mexer-se, propor uma palavra, uma frase, interpretar as coisas segundo a lei inspirada. A inocência é a tarefa de uma vida e essa vida deve ser então redonda, completa. Não sei de vidas completas.
De modo que os criminosos acabam por incitar-se uns aos outros, e tudo parece pequeno: ódio, vingança, crime; pode-se olhar face a face qualquer assassino: nenhuma estrela de primeira grandeza conduz essas biografias nocturnas; têm-se pela frente apenas as magias menores.

 

 

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Desarrumado num retrato em ouro todo aberto.

13.08.14

 

Sou eu, assimétrico, artesão, anterior

- na infância, no inferno.
Desarrumado num retrato em ouro todo aberto.
A luz apoia-se nos planos de ar e água sobrepostos,
e entre eles desenvolvem-se
as matérias.
Trabalho um nome, o meu nome, a dor do sangue,
defronte
da massa inóspita ou da massa
mansa de outros nomes.
Vinhos enxameados, copos, facas, frutos opacos, leves
nomes,
escrevem-nos os dedos ferozes no papel
pouco, próximo. Tudo se purifica: o mundo
e o seu vocabulário. No retrato e no rosto, nas idades em que,
gramatical, carnalmente, me reparto.
Desequilibro-me para o lado onde trabalha a morte.
O lado em que tudo isto se cala.

 

 

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Com alguma ironia furibunda.

05.08.14

 

Porque eu sou uma vida com furibunda 

melancolia,

com furibunda concepção. Com alguma ironia furibunda.

Sou uma devastação inteligente.

Com malmequeres fabulosos.

Ouro por cima.

A madrugada ou a noite triste tocadas

num trompete. Sou 

alguma coisa audível, sensível.

Um movimento.

Cadeira congeminando-se na bacia,

feita o sentar-se.

Ou flores bebendo a jarra.

O silêncio estrutural das flores.

E a mesa por baixo.

A sonhar.

 

 

 

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