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Não é anáfora suada

09.09.16

 

Há uma mulher dentro de mim que não é gramática decomposta nem acento circunflexo. Não é metáfora exagerada, nem vegetação espessa no limite da vírgula. Não é anáfora suada, nem rigor maiúsculo no recuo do parágrafo. Há uma mulher dentro de mim que não é periferia nem superfície transversal. Essa mulher que não outra mulher, esmaga-me as telhas no tecto da boca. Tenho-a calada e encavalitada debaixo das palavras mais fáceis de carcomer. Tenho-a cansada e regrada por cima das feridas menos custosas de sarar. Mas essa mulher que dentro de mim não me permite outra habitação que não esta, não me serena a vontade áspera de romper a madeira dos braços, de moer do úmero a lasca e da acha articular outro galho maior. Há uma mulher dentro de mim que não me reconhece como sua. Há uma mulher dentro de mim que míngua encolhida no cavo do medo. Há uma mulher dentro de mim que ama uma mulher insuficiente de si mesma.

 

 

 

 

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Filha, não te faças de desentendida...

07.09.16

 

 

 

O medo caminha de cabeça erguida neste planeta. o medo quer, pode e manda, próspero e eminente. O medo tem-nos a todos presos por um fio aqui em baixo. É verdade, meu caro. Filha, não te faças de desentendida... Um dia destes vou fazer frente ao medo.Vou fazer-lhe frente. Alguém tem de o fazer. Vou enfrenta-lo e dizer: Muito bem, cabrão, já chega. Já nos andas a dar ordens há tempo de mais. Eis alguém que não te quer aturar mais. Acabou-se. Fora!

 

 

 

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O que aqui não se ouve ocupa hoje o espaço inteiro

02.09.16

 

 

 

Eu não tenho passado, trago tudo comigo. É uma questão de incompetência - construí uma casa de vidro sem aprender a porta, abandonei-me à minha sorte, e a janela que me mostras abrindo-se serve apenas para confirmar o que aqui se encerra. Por todos os cantos foram plantadas pela mesma mão as papoilas e as ervas daninhas e as vozes muitas disfarçadas pelos silêncios. O que aqui não se ouve ocupa hoje o espaço inteiro, despedaçado. E se o tempo parece ter esquecido este lugar, é porque há muito que nada esqueço. Não chegaste a tempo de perceber que nem sempre se confundiram as estações e as horas dos dias, que houve um tempo em que os nomes das coisas tinham nomes de coisas e não nomes de gente ausente. Mas tu que me olhas podes confirmar a lucidez do que digo quando digo que só a perda sempre nos acompanha.

 

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E o percurso ilumina-se

29.08.16

 

 

 

Estarmos juntos é responder à luz que de entre nós se exalta e requer nomes E vamo-nos içando até que o fluxo ritme o natural curso do amigável diálogo E há no coração um entusiasmo puro que é folhagem e música e edifício claro e também chispas de um incêndio feliz De um incontível fundo vamos projectando os impulsos que em espiral ascendem E o percurso ilumina-se e ondula até ao cimo da emoção ébria que é alma e inteligência numa única árvore que estremece e que reina.

 

 

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Não há mais ninguém no bar cheio de gente.

26.08.16

 

Primeiro a tua língua molha o meu coração, num vagar de fera. Estendo aurículos e ventrículos sobre a mesa, entre os copos que desaparecem. Não há mais ninguém no bar cheio de gente. Abres-me agora os pulmões, um para cada lado, e sopras. Respiras- -me. O laser das tuas palavras rasga-me o lobo frontal do cérebro. A tua boca abre-se e fecha-se, fecha-se e abre-se, avançando por dentro da minha cabeça. As minhas cidades ruem como rios, correndo para o fundo dos teus olhos. O tempo estilhaça-se no fogo preso das nossas retinas. O empregado do bar retira da mesa o nosso passado e arruma-o na vitrina, ao lado dos exércitos de chumbo. Entramos um no outro, abrindo e fechando as pernas das palavras, estremecendo no suor dos olhos abraçados, fazendo sexo com a lava incandescente dessa revolução imprevista a que damos o nome de amor.

 

 

 

 

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Tornaram a cortar.

24.08.16

 

 

 

Vou contar uma história. Havia uma rapariga que era maior de um lado que do outro. Cortaram-lhe um pedaço do lado maior: foi de mais. Ficou maior do lado que era dantes mais pequeno. Cortaram. Ficou de novo maior do lado que era primitivamente maior. Tornaram a cortar. Foram cortando e cortando. O objectivo era este: criar um ser normal. Não conseguiam. A rapariga acabou por desaparecer de tão cortada nos dois lados.

 

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folhas tremiam ao invisível peso mais forte.

23.08.16

 

 

 

 

 

Atravessei contigo a minuciosa tarde, deste-me a tua mão, a vida parecia difícil de estabelecer acima do muro alto, folhas tremiam ao invisível peso mais forte. Podia morrer por uma só dessas coisas que trazemos sem que possam ser ditas: astros cruzam-se numa velocidade que apavora, inamovíveis glaciares por fim se deslocam e na única forma que tem de acompanhar-te, o meu coração bate.

 

 

 

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Mas não esta manhã.

19.08.16

 

 

Nós, os mirones, praticamos, às vezes, formas muito rebuscadas do nosso vício. Não nos basta espiar e ser indiscretos, não nos contentamos em indagar a vida dos outros – necessitamos absolutamente de ver para além do que pode ser visto, aquilo que a aparência oculta, e até de construir acontecimentos mesmo quando e onde nada parece existir. É por isso que, enquanto caminho pela cidade, gosto de fotografar dissimulada e aleatoriamente as pessoas à minha volta, a ver se, por acaso, o disparo da máquina capta algum movimento interessante, um gesto ou um meneio de cabeça que, uma vez congelados numa só fracção de segundo, mereçam, depois, que perca tempo a reenquadrar e redistribuir as sombras e a luz até ao ponto em que uma imagem banal e desinteressante se transforma num instantâneo fotográfico que possa vender a alguma revista de actualidades (ou de mexericos).
O mais comum é que as imagens assim captadas sejam totalmente desinteressantes e que fiquem tremidas ou desfocadas, sem nenhum préstimo. Quase sempre as apago logo a seguir, assim que as vejo no pequeno monitor da parte de trás da máquina e confirmo que não há ali nada que se aproveite. Mas não esta manhã. 

 

 

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é-se invariavelmente assado

21.10.15

 

 

- Falhamos a vida, menino!
- Creio que sim... Mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto é, falha-se sempre na realidade aquela vida que se planeou com a imaginação. Diz-se: «vou ser assim, porque a beleza está em ser assim». E nunca se é assim, é-se invariavelmente assado, como dizia o pobre marquês. Ás vezes melhor, mas sempre diferente.

 

 

 

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Então as coisas aparecem-me nítidas.

11.12.14

 

 

 

 

Mesmo eu, o que sonha tanto, tenho intervalos em que o sonho me foge. Então as coisas aparecem-me nítidas. Esvai-se a névoa de que me cerco. E todas as arestas visíveis ferem a carne da minha alma. Todas as durezas olhadas me magoam o conhecê-las durezas. Todos os pesos visíveis de objectos me pesam pela alma dentro.

A minha vida é como se me batessem com ela.

 

 

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