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O prazer é um produto corpóreo da imaginação. Acreditar é um segundo de prazer.

28.06.14

 

 

Sentou-se na esplanada, perna cruzada, e esperou que o tempo passasse. Sabia que a vida se resumia, por vezes, a isso: o tempo a passar, entre uma garrafa de cerveja e o vento a correr sobre o rosto. A loucura é acreditar que vale a pena. Recordou as férias, a praia, as correrias e os suores. E a pele dela. Ah, a pele dela. A loucura é acreditar que vale a pena. Fechou os olhos e foi lá, exactamen...te lá, ao momento e ao lugar da pele dela. Às pernas tocadas por baixo das mesas, aos braços roçados por cima das mesas. E aos lábios que se beijavam a cada vez que se falavam. Ah, a pele dela. A pele dela sempre por descobrir. A loucura é acreditar que vale a pena. Toda a pele por descobrir. Ah, o riso dela. Aquela forma de encher a vida com um simples som. Fechou os olhos e acreditou que era agora o tempo do riso, que era agora o tempo da loucura. A loucura é acreditar que vale a pena. E vale.

Deitou-se na cama, serviu-se do corpo. Como se servisse um cálice de vida. Como se celebrasse o que deixou por viver. Há uma vida a mais sempre que se vive o que se deixou por viver. Quis que fosse outra vez o tempo perdido, o tempo do choro, da saudade, da tristeza. Quis outra vez sentir a ausência. Como se fosse a única forma de presença. Como se sentir a falta fosse a única forma de voltar a sentir o que quer que fosse. Como se o tempo perdido fosse a única forma de ganhar tempo. Esqueceu-se dos lençóis chorados, esqueceu-se do nunca mais que se ergueu no eco das horas. E serviu-se do corpo. Há uma vida a mais sempre que se vive o que se deixou por viver. Imaginou-o na esplanada de sempre, no nada querer de sempre, no espaço vazio de sempre. E serviu-se do corpo para não se servir das lágrimas. Imaginou-o na cerveja de sempre, na distância de sempre, na terra sem dono de sempre. Há uma vida a mais sempre que se vive o que se deixou por viver. Imaginou-o o mesmo incapaz de sempre, o mesmo zero de sempre. O mesmo dependente de sempre. E quis, sem sequer chorar ou sentir, ser a mesma louca de sempre. A louca dele. Para sempre.

Havia o minuto de todas as horas na esplanada em que a manhã se fizera tarde. Havia ainda a cerveja, havia ainda a sensação de que não havia espaço para o que os olhos viam. O empregado de bata branca sentado, ao lado, sem saber a felicidade de não ter uma saudade para chorar, a velha sorridente que passa com o neto pelo braço, sem saber o milagre de não ter um nunca foi que nunca deixa de ser. Há um instante em que percebes que foi o que não forçaste que valeu a pena. A esplanada vazia sob o calor tórrido do pico da tarde. A esplanada vazia com aquele homem e aquela cerveja e aquela saudade dentro. A esplanada vazia. A vida resume-se à absoluta sensação de vazio que só o que amas te oferece. A vida resume-se à absoluta sensação de vazio que não teres o corpo de quem amas te oferece. O homem vazio cheio de saudade, a cerveja vazia cheia de verdade. Já nem sequer a velha sorri (“este miúdo dá-me cabo da cabeça”), já nem sequer o empregado descansa. Mais um gole que nada sacia, mais uma recordação que nem o vento carrega. Um homem deixado na sua rotina que não deixa. A felicidade é uma rotina que se repete sempre diferente. Não fecha os olhos, não imagina o que um dia foi nem o que um dia será. Limita-se a sentir, no corpo, aquilo que nem a alma consegue digerir. Limita-se a sentir.  A vida resume-se a sentir.

A cama por amar. A mulher serviu-se do corpo e nem o corpo se sentiu servido. O prazer é um produto corpóreo da imaginação. Estendeu-se e sentiu-se estendida, na cama em que todos os êxtases se vieram. E acreditou. Acreditar é um segundo de prazer. Quis estender a recordação, trazer de volta o que sabia que nunca, na verdade, fora capaz de ter. Imaginou-o no sítio de sempre e foi – respiração parada, como sempre. Sabia que não podia, sabia que não devia, sabia que nem ela a si o recomendaria. E acreditou que tinha tudo o que queria: a esplanada de sempre, a ausência de sempre, o nada ter de sempre, a desgraça de uma dependência de sempre. O prazer é um produto corpóreo da imaginação. Acreditar é um segundo de prazer. Não sabe se foi ele que correu para ela, não sabe se foi ela que correu para ele. Sabe que houve um abraço a meio do caminho – mas nem sabe (como saber o que só se sente?) qual era o caminho. Sabe ainda que ele não disse que a precisava, nem disse que a sentia como ela disse que o sentia. E sabe que aquilo, aquele nada dizer, aquele nada sentir, foi tudo o que precisou de ouvir, foi tudo o que precisou de sentir. Regressou à cama e aos lençóis e encheu-os de saudade em estado líquido. Não chorou mais do que o costume, não se quis mais dele do que o costume. E soube que a felicidade podia muito bem ser apenas aquilo: o homem defeituoso de sempre na realidade imperfeita de sempre.

 

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Vai ao contrário só porque te apetece.

20.06.14

 

 

Usa desodorizante. Diz pelo menos os palavrões todos que te apeteça dizer. Lava os dentes. Faz algo que te assuste. Diz piadas.... Não escolhas o fácil só porque te parece fácil. Não comas com a boca aberta. Não faças o difícil só porque te parece difícil. Ama sem olhar a quem. Come chocolates. Ama só quando te sentes alguém. Beija de língua. Sonha com algo impossível. Orgulha-te de cada ruga. Experimenta novas posições sexuais. Ri-te de ti. Sonha com algo possível. Ri-te dos outros. Imagina o teu pior inimigo sentado na sanita. Ri-te de tudo. Nunca penses que brincas demais. Chora. Salta à corda. Leva quem amas para um motel. Atira-te ao mar sempre que podes. Ama o sol. Abraça. Ama a chuva. Perdoa quem amas. Ama o vento. Perdoa quem não amas. Toma banho todos os dias. Nunca desistas de um orgasmo. Partilha. Ajuda. Olha. Faz questão de tocar com a pele. Sorri para quem te quer bem. Abraça com força. Sorri para quem te quer mal. Não tenhas medo de desistir. Sê único. Não tenhas medo de não desistir. Respeita a maioria. Sê feliz com tudo o que temes. Caga na maioria. Dá tudo o que tens a todos os que amas. Vai ao contrário só porque te apetece. Usa cremes hidratantes. Faz o que te der na real gana. Casa por amor. Ri para sempre. Vive por amor. Arrisca. Pisa o risco. Sê pornográfico. Vicia-te em adrenalina. Prossegue. Avança. Lava periodicamente o sexo. Faz todas as opções em nome do prazer. Ama periodicamente com o sexo. Insiste em viver. Vem-te periodicamente. Continua esta lista. Todos os dias. A toda a hora. Já.

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Mas depois a casa perde espaço

08.05.14

 

 

O casamento é um lugar comum. Tentei habitá-lo como se habita uma casa: no começo com aventura, com adrenalina, com a necessidade de fazer de cada espaço um espaço de valer a pena: um espaço com prazer dentro. Mas depois a casa perde espaço: há cada vez mais móveis, há cada vez mais espaço ocupado e cada vez menos espaço por ocupar. Mas depois a casa perde-se espaço. E o espaço que sobra é um espaço pequeno, diminuto, asfixiante. E o espaço ocupado é o que já foi, o que não consegues deixar de ver nele: o que um dia foi espaço livre e que agora é apenas um espaço ocupado. Só o espaço livre por conquistar me ocupa verdadeiramente. É a tarefa de ocupar, de ir aos poucos ocupando, conquistando, colonizando, fazendo meu o que me fascina. Não é, nunca é, o próprio espaço ocupado, e a forma como é ocupado, que me faz querer ocupá-lo. O caminho é o único fim possível. O meio é o único meio possível.

 

 

 

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Porque é só por aquilo que te faz perder a respiração que vale a pena respirar.

23.04.14

 

 

Não me venham com merdices. Com merdices de que a presença do amor vai para além do corpo, que é possível amar e sentir à distância como se fosse aqui, pele na pele, olho no olho. Não me venham, ainda, com a ideia de que o amor tem de ser saudável. Merda com isso. Merda para isso tudo. O amor não é saudável – é louvável. O amor é um milagre. E um milagre tem de ser, todos os dias, demencialmente, apreciado. O amor é um milagre diário – e que, para todos os dias poder ser o milagre que é, tem de receber loas e vénias e ser acarinhado e apreciado como se fosse o primeiro dos milagres. E é: o amor é sempre o primeiro dos milagres. Todos os dias, quando o amor continua a ser todos os dias, o amor é um milagre. O amor tem de ser amado. O amor não é uma empresa, não é uma reunião, não é uma associação de duas personalidades. O amor é tudo. É saber que se é aquilo, que se vive aquilo, que se sonha e acorda aquilo. O amor é saber que só se é aquilo. É claro que há os empregos e as carreiras e as obrigações e essas porcarias todas. Mas tudo isso, quando se ama, são meros espaços de passagens, irrelevantes espaços vazios: oco entretenimento para o que realmente interessa. E tu, minha mulher que amarei, tens de entender isso de uma vez por todas. Se queres ser a mulher que eu amo, tens de precisar de mim, tens de me asfixiar de ti, tens de estar, como as minhas pernas e os meus braços, em mim: sempre em mim. É claro que não é saudável, é claro que não é razoável, é claro que é insensato. Mas o amor não é saudável, o amor não é razoável, o amor não é sensato. O amor é para ser aquilo que não tem razão, aquilo que não explicação, aquilo que te tira da tua mão. O amor é para ser aquilo que te renova de ti, de um Eu que sempre foste, e que atira para um nós que nunca deixaste de ser. Depois, com o passar dos dias, se verá se ele resiste. Depois, com o passar dos dias, se verá se ele continua a ser, todos os dias, o milagre que hoje é. Depois pode até matar-te por afogo, enforcar-te por ansiedade. Mas que se dane: se isso acontecer já viveste, abençoado felizardo, o milagre de seres amor: de seres o que é, verdadeiramente, o amor. Se isso acontecer já sentiste a felicidade vezes sem conta, aquela sensação de que se a vida acabasse logo ali já teria valido a pena. Se isso acontecer já foste o deslumbramento de seres amor, a realização de seres amar. Se isso acontecer, já perdeste o ar tantas vezes, já ficaste sem respiração ainda mais tantas vezes. Ama, perde-te em amar, vive amar: sê amar. Deixa que amar te ocupe, deixa que amar te conquiste. Ama o abraço até à exaustão, ama o beijo até à devoção, ama o orgasmo até à comoção. Ama. Ama como se fosse para sempre. E quando se ama, naquele exacto segundo em que se ama, tem de se acreditar que é para sempre. Mais: tem de se ter a certeza de que é para sempre. Amar, mesmo que por segundos, mesmo que por instantes, é para sempre. E é isso, essa sensação de segundos ou de minutos ou de dias ou de horas ou de anos ou meses,  que é para sempre. Ama. Ama por inteiro. Ama sem nada pelo meio. Ama, ama, ama, ama. Ama. Porque é só por aquilo que te faz perder a respiração que vale a pena respirar.

 

 

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E para sempre é todo o tempo de que precisas.

28.03.14

 

 

Podes ser infeliz a vida toda e ainda ir a tempo de seres feliz para sempre.
Quando passas pela vida a pensar – e a dizer-te – que estás a passar pela vida: estás, de facto, a passar pela vida. Mas quando te passas e te dizes e te pensas como a caminho de deixares de passar pela vida: estás finalmente a fazer a vida passar por ti. E a passar-se por ti acima e por ti abaixo. Quando te passas e te dizes e te pensas como a caminho de deixares de passar pela vida: tens todo o t...empo do mundo à tua frente. O tempo é para a frente. Tens a vida toda à tua frente. Sempre. Tens o mundo todo a teus pés. Sempre. Sempre sempre. E para sempre é todo o tempo de que precisas. Se estiveste quinze ou trinta ou cinquenta anos infeliz ao lado de alguém e saíste agora desses quinze ou trinta ou cinquenta anos de infelicidade ao lado de alguém: bato-te palmas com toda a força. És o maior. O herói mais corajoso que eu conheço. Se estiveste quinze ou trinta ou cinquenta anos infeliz ao lado de alguém e saíste agora desses quinze ou trinta ou cinquenta anos de infelicidade ao lado de alguém: não deixes que te desvalorizem por teres sido imbecil ao ponto de aguentares tanto tempo de infelicidade ao lado de quem te fez infeliz. Nada disso. Se estiveste quinze ou trinta ou cinquenta anos infeliz ao lado de alguém e saíste agora desses quinze ou trinta ou cinquenta anos de infelicidade ao lado de alguém: valoriza como um maluco a danada, a maravilhosa, a abençoada, força que tiveste para, ao fim de tanto tempo, ainda teres a coragem de te pores na alheta e ires à procura da tua vida. Se estiveste quinze ou trinta ou cinquenta anos infeliz ao lado de alguém e saíste agora desses quinze ou trinta ou cinquenta anos de infelicidade ao lado de alguém: és o Rambo. O destemido e incauto herói que derrota tudo e todos. O maluco que olha nos olhos da dor e se ri dela como se nem ela, a dor, lhe pudesse doer. O maluco que olha nos olhos da morte e se ri dela como se nem ela, a morte, o pudesse matar. Se estiveste quinze ou trinta ou cinquenta anos infeliz ao lado de alguém e saíste agora desses quinze ou trinta ou cinquenta anos de infelicidade ao lado de alguém: és o Rambo. Já puseste a fita vermelha na cabeça?

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O pior de tudo ...

26.03.14

 

o pior de tudo nem é chorar, nada disso, chorar sofre mas acalma, o que magoa desfaz-se em água e toda a gente sabe disso, há que molhar o que corta para cortar doer menos, e
o pior de tudo nem é chorar, digo-to outra vez, sei que dormes ...e não me ouves, eu preferi ficar acordada a perceber como fecham as tuas pálpebras, a forma arredondada dos teus olhos quando adormeces profundamente, tocar-te ao de leve na pele e agradecer a sorte desta cama e nós, as tuas pernas sobre as minhas, tão pesadas que doem e eu aguento, antes a dor do teu peso do que a tua ausência a pesar-me, pousar a minha cabeça entre o teu braço e o teu ombro, ouvir-te respirar, e finalmente respirar, e
o pior de tudo nem é chorar, não sei se te disse, quando acordo procuro-te com  os braços, talvez seja ainda antes de acordar, o meu corpo a dormir e já desabrigado, como se quisesse garantir a sobrevivência antes de nascer, estás a dormir e não sabes mas amo-te também com o corpo, um amor musculado, podes chamar-lhe assim, e quando adormeceste e logo depois disseste três ou quatro vezes “amo-te, Carla” eu entendi que o amor é assim e é por isso que se ama, para que nem o sono nos impeça de amar, e nisso somos iguais, amamos mesmo quando dormimos, e é tão bonito amar tão grande, e
o pior de tudo nem é chorar, é a última vez que to digo, prometo-te, porque o pior de tudo nem é chorar, é ninguém ver as nossas lágrimas, o mundo em derrocada e tudo à volta como se acontecesse, o pior de tudo, afinal digo-te mais uma vez, nem é chorar, é chorar sozinho, as nossas lágrimas e ninguém com elas, lágrimas sem tecto, e
o pior de tudo é ninguém ver as tuas lágrimas, e eu não me chamar Carla, claro.

 

 

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Ninguém manda no que pensa.

11.03.14

 

 

- Gosto da tua mente. Podias vender o que pensas.

 

- Gosto do teu corpo. Podias vender o que fodes.

 

- Um dia trocamos. Eu abro as pernas e tu abres a cabeça.

 

- A mente é, para mim, território de ninguém. Ninguém manda no que pensa. Não posso vender o que não domino.

 

- Em que estás a pensar agora?

 

- No que tu estás a pensar. Muitas vezes passamos horas a pensar no que outras pessoas estão a pensar. E acabamos por não pensar em absolutamente nada.

 

- Tens uma mente pornográfica.

 

- Apetece-te fodê-la, é?

 

 

 

 

(retirei, descarada e pornograficamente daqui)

 

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A sociedade admite tudo, excepto a sinceridade.

10.03.14

 

 

Ser sincero é a melhor maneira de ganhar inimigos. A esmagadora dos crimes não é passional; é sincerional. Crimes de resposta à sinceridade. E mata-se o homem que, com sinceridade, diz à mulher que ama outra mulher. E mata-se a amiga que, com sinceridade, diz à amiga que errou, que fez mal, e que arruinou o seu futuro. E mata-se o patrão que, com sinceridade, disse que vai despedir o funcionário porque não gosta dele.... E mata-se a mulher que, com sinceridade, disse ao homem que já não a excita e que pensa noutro sempre que faz amor com ele. Nunca se mata a favor de nada. Mata-se contra a sinceridade. Se queres ser assassinado um dia: então sê sincero todos os dias. A sociedade admite tudo; excepto a sinceridade.

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É só um bocadinho mas chega...

05.03.14

 

Da minha janela vê-se o teu corpo, é mais ou menos às dez, tu jantas e depois ficas ali, naquele cadeirão na esquina da sala, fumas um cigarro, às vezes dois, olhas para o espaço imenso da cidade, as luzes paradas, os lugares vazios, e eu i...magino que me estás a olhar, é nesses momentos que me emociono, o fumo pelo ar da tua sala e eu a fumar contigo, e não vejo intimidade maior do que um cigarro a dois no silêncio mais profundo da noite.

Da minha secretária vê-se a tua vida, é só um bocadinho mas chega, basta que tenhas de ir buscar qualquer coisa à gaveta dos agrafos e já te vejo, fazes um olhar carregado, talvez não gostes muito de arquivar documentos, organizar capas e recibos, e eu gosto de parar para não gostar contigo, cerro os olhos e tento perceber o que mudou em ti desde a noite passada, perceber se dormiste bem ou não, de que cor é o batom que trazes hoje, quantas vezes olhas a fotografia da tua filha, e não vejo intimidade maior do que olharmos juntos para o que mais amas.

Da minha mesa vê-se a tua solidão, almoças contigo e eu vou também, a mesa do canto sempre que podes, uma comida leve, uma salada ou o peixe do dia, não sei se te disse que não precisas de dieta para nada, se desenhasse o teu corpo era um homem completo, o dia todo a olhar-te, mas não sou artista e só te amo, a mesa do canto longe da janela, provavelmente tens medo das pessoas ou dói-te ninguém, a mim também, ficas a saber, peço o que pedes e vou-te acompanhando sem pressas, e não vejo intimidade maior do que almoçarmos a dois cada um no segredo do seu canto.

Da minha bicicleta vê-se a tua liberdade, corres ao fim da tarde no parque mais perigoso da cidade e eu protejo-te para me proteger do teu fim, vigio-te a uma distância segura, o rio lá ao fundo, os mitras olham-te e eu tremo, um dia isto corre mal, passo por eles e faço-me de mau, eu que nunca bati em ninguém e que era a chacota da escola, para ti faço-me de herói e se for preciso sou mesmo, hoje paraste mais cedo do que o costume e estás dobrada, não sei o que se passa e estou assustado, não és mulher de parar a meio do que te magoa, agora sentaste-te e fechaste os olhos de repente, o corpo desligado e eu não aguento mais, paro a bicicleta e agarro-te com força, felizmente é só um desmaio e tu acordas, eu contigo nos braços e os teus olhos a abrir, e não vejo intimidade maior do que abrires os olhos e encontrares os meus.

Do meu lado da cama vê-se a tua mão, está pousada no meu peito e a vida bem que podia ser só isto, tu a dormires com a tua mão pousada sobre o meu peito nu, a minha respiração e a tua mão a subir com ela, ontem fumaste o cigarro do lado de cá, contei-te que o fumava contigo, mostrei-te por que ângulo te amava, mas o dia acontece, a luz chega e há que trabalhar, tu agradeces, pedes-me desculpa por teres sido fraca e vais-te embora, lanças a possibilidade de voltares a ligar, dizes que não sabes o que nos une mas que vais tentar descobrir, eu deixo-te ir e fumo um cigarro à janela, toda a cidade à procura não sei de quê, e não vejo intimidade maior do que a possibilidade de estar a fumar o mais feliz cigarro do mundo.

 

 

 

 

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E são mais um entre os outros tantos.

24.02.14

 

 

Não consigo. É essa a maldade maior de todo este mundo. De toda esta mediocridade. Isola os capazes. Isola os que valem a pena. E comprime-os. E depois não lhes dá voz. E são mais um entre os outros tantos. E por mais que ergam a voz ninguém os descobre. Porque estão perdidos. Porque estão entre todos os outros. E não é possível encontrar a agulha que está entre as agulhas. E não há palheiro. Apenas agulhas. E é mais difícil encontrar uma agulha única quando ela está entre milhares de agulhas banais do que encontrar uma agulha quando ela está num palheiro. Antes uma agulha num palheiro do que uma agulha numa mole de agulhas. 
A maldade do mundo é democratizar a mediocridade

 

 

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