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E ainda o não sabes hoje.

25.08.16

 

O sótão: era ali
que o mundo começava. Ainda
não sabias, então,
quantas letras te seriam
necessárias para soletrar
o alfabeto dos dias, para encher
a tua caixa
de música, a tua concha
de areia. E ainda
o não sabes hoje. Com cinza
nada se escreve a não ser
as vogais do silêncio. E este
é o nome que se dá à ausência,
quando a noite e a poeira
dos astros pousam
sobre a ranhura dos olhos.


 

 

 

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Se soubesse como sê-lo…

03.10.14

 

 

Ah, a frescura das manhãs em que se chega, 


E a palidez das manhãs em que se parte, 

Quando as nossas entranhas se arrepanham 

E uma vaga sensação parecida com um medo 

- O medo ancestral de se afastar e partir, 

O misterioso receio ancestral à Chegada e ao Novo - 

Encolhe-nos a pele e agonia-nos, 

E todo o nosso corpo angustiado sente, 

Como se fosse a nossa alma, 

Uma inexplicável vontade de poder sentir isto doutra maneira: 

Uma saudade a qualquer coisa, 

Uma perturbação de afeições a que vaga pátria? 

A que costa? a que navio? a que cais? 

Que se adoece em nós o pensamento, 

E só fica um grande vácuo dentro de nós, 

Uma oca saciedade de minutos marítimos, 

E uma ansiedade vaga que seria tédio ou dor 

Se soubesse como sê-lo… 
 
 
 

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Palavra dentro da qual estou a milhões

30.09.14

 

 

 

Palavra dentro da qual estou a milhões
de anos é árvore.
Pedra também.
Eu tenho precedências para pedra.
Pássaro também.
Não posso ver nenhuma dessas palavras que
não leve um susto.
Andarilho também.
Não posso ver a palavra andarilho que
eu não tenha vontade de dormir debaixo
de uma árvore.
Que eu não tenha vontade de olhar com
espanto, de novo, aquele homem do saco
a passar como um rei de andrajos nos
arruados de minha aldeia.
E tem mais: as andorinhas,
pelo que sei, consideram os andarilhos
Como árvore.

 

 

 

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Com alguma ironia furibunda.

05.08.14

 

Porque eu sou uma vida com furibunda 

melancolia,

com furibunda concepção. Com alguma ironia furibunda.

Sou uma devastação inteligente.

Com malmequeres fabulosos.

Ouro por cima.

A madrugada ou a noite triste tocadas

num trompete. Sou 

alguma coisa audível, sensível.

Um movimento.

Cadeira congeminando-se na bacia,

feita o sentar-se.

Ou flores bebendo a jarra.

O silêncio estrutural das flores.

E a mesa por baixo.

A sonhar.

 

 

 

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A lâmpada apagada. Por dentro

29.07.14

 

A mulher muitas vezes avança

A mulher muitas vezes caminha pela borda
Do vestido. Pudesse tocar
A fímbria ou a franja de toda a casa
Ela a sararia. Ela sairia
Com o cabelo solto
Muitas vezes a mulher prende o cabelo com as mãos
Cose muitas vezes com a lâmpada por dentro - a agulha
A cerzir o brilho. A mulher remenda
A lâmpada apagada. Por dentro
O coração ponteia alguma luz
A vida roda, o vestido rompe-se
A mulher é um barco quando se afunda
A hélice gira - gera como planta
Em redor da luz. A mulher
Anda em redor como corola
Sem pólen
A azenha anda à volta na memória e a água corre-lhe
Dos olhos. Põe o coração para a frente como os fuzilados
Enxuga os olhos como se espalhasse. A mulher
Varre infinitamente mais do que o que vemos ou somos capazes de
imaginar
E há imagens na terra
Que nunca lembram o céu
 

 

 

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aqueles momentos que cheiram como pétalas de rosa e erva cortada

12.07.14

 

 

Amo os primeiros momentos da manhã
aqueles momentos que ainda ninguém usou
tão limpos
que deves lavar os pés antes de os habitares
aqueles momentos que cheiram como pétalas de rosa e erva cortada
e encharcam a tua roupa com orvalho

Irás chocar com segredos
descobrir milagres cobertos habitualmente pelo fumo dos autocarros
escutarás puros ecos sussurros e corridas precipitadas

Amo os primeiros momentos da manhã
quando o sol tem um só olho aberto
e o dia é como uma camisa lavada
sem vincos e pronta a usar
aqueles momentos que prendem a tua atenção
por serem tão sossegados


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Os degraus

25.06.14

 

 

 


Não desças os degraus do sonho 
Para não despertar os monstros. 
Não subas aos sótãos - onde 
Os deuses, por trás das suas máscaras, 
Ocultam o próprio enigma. 
Não desças, não subas, fica. 
O mistério está é na tua vida! 
E é um sonho louco este nosso mundo

 

 

 

 

 

 

 

 

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Nesta ignorância sábia me consumo

11.06.14

 

 

Condenado a dizer o que não sei,

eu não desisto de saber o que não digo.
Só sei que não sei nada, que sei que não sei,
mas, ao dizer tal frase, eu nada digo.
Nesta ignorância sábia me consumo
  e vão passando os dias
e as noite, como círculos de fumo.

 

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Amo o haver tudo e a mim

05.06.14

 

 

 

Amo o que vejo porque deixarei
        Qualquer dia de o ver.
        Amo-o também porque é.
No plácido intervalo em que me sinto,
        Do amar, mais que ser,
        Amo o haver tudo e a mim.
Melhor me não dariam, se voltassem,
        Os primitivos deuses,
        Que também, nada sabem.

 

 

 

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E é preciso isso tudo

30.05.14

 

é porque existe o desejo, o olfacto, e o medo,

e os vivos apaixonam-se por outros vivos,

e lembram-se, por vezes, do enorme número de mortos,

e dentro destes há alguns que os fazem desligar a luz e o trabalho,

e o quotidiano aí já não basta,

porque o coração tem em certos dias um orçamento incomportável

E não basta então a mulher que amamos,

nem os filhos

- os que nos vão sobreviver no tempo -

e é preciso sair, e não basta sair para a rua e correr,

é preciso sair dos ossos,

fugir do obrigatório, à casa,

encontrar dentro dos bolsos o bocado de uma carta, de um mapa,

fragmento que possa reconstruir o caminho para a casa da infância

onde Deus era chocolate e o resolvíamos

assim, de uma vez, porque o comíamos

Porque mais tarde crescemos e ganhámos

dinheiro, família, e alguns outros assuntos,

mas perdemos qualquer coisa de que é impossível falar,

de que não sabemos falar.

E é preciso isso tudo,

e por quase tudo o que faltou dizer,

é por isso que é bom, por vezes,

suspender a noite e o coração,

e obrigar o cérebro à paragem surpreendente.

E é por isso que é bom, por vezes,

ocuparmos o corpo no acto de sentar,

e pedir, então, à arte, à literatura, ao teatro,

que nos salve,

por enquanto,

antes de morrermos.

 

 

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