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Tens tempo para um estranho?

por Maria Rita, em 14.02.20

 

 

 

Todos os dias saio para a decisão de um amor sem protagonista. Encosto-me às paragens de autocarro e aceno subitamente a alguém que passa. Por vezes retribuem-me o gesto e ficamos ambos sem saber se por graça, se por um escuro reduto de uma franqueza cada vez mais rara. Tens tempo para um estranho? A que horas me poderias dizer o teu nome? Conheço uma igreja que ardeu, conheço outra que é muito muito pequena. Escuta, no meio desse teu deserto, ao passar a caravana do luxo, será que és capaz de suplicar: água?

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publicado às 09:01

Por vezes são estrelas que sobem

por Maria Rita, em 27.10.14
A ferida por baixo da cicatriz

- quem cura?

 

Por vezes são estrelas que sobem

quando a água ocupa o espaço

e um brilho esquivo tropeça

no cansaço

do dia

 

No chão ainda morno

ardem pétalas sossegadamente

e há a melancolia de um pássaro

 

Na varanda esquecida

por trás de toda a magia da noite

(há tanta solidão em quem repara)

dura um homem que diz baixinho

assim quase para fora

 

A ferida por baixo da cicatriz

- quem cura?

 

 

 

 

 

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publicado às 09:15

Mereço todas as minhas paixões.

por Maria Rita, em 15.10.14

 

 

Sou um pintor. Trago sangue para os vossos olhos. Tenho artérias que se descosem e me cospem dentro de mim mesmo. Preciso de muita paciência, de todas as mulheres do mundo. Durmo sobre a cama profana da minha escuridão. Contagio e deixo-me contagiar pela peste dos bairros pequenos. Não suporto muita luz, não sei o que é uma avenida. Esquina, sou qualquer coisa que o espanto torce. Sou viciado no álcool dos corpos que se difundem. Bebo das vossas bocas o que não pode ser visto. Pinto para me esquecer do que não pode ser visto. Pinto com os materiais clandestinos do meu amor. Não projecto nada na minha tela. Eu sou a tela. Eu sou a luta das cores por um diafragma de beleza. Sou um pintor. Mereço morrer como pintor. Não mereço que me prendam. Mereço todas as minhas paixões. Mereço todas as minhas paixões.

 

 

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publicado às 10:52

Uma porta entreabre-se para o fundo de um grito

por Maria Rita, em 17.03.14

o silêncio tem vozes sem nome
que não possuem sossego até serem ouvidas

a casa que habitamos ecoa memórias
uma porta entreabre-se para o fundo de um grito
como se por um momento tudo regressasse à sua morte

os contornos da terra hesitam em sua posição
um lume mínimo espanta-nos os dedos
e é uma força subtil

algo dentro e fora da casa nos convida à totalidade
porém o fogo reclama ainda o nosso corpo

um passo mais e a solidão será real

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publicado às 09:49

Medo

por Maria Rita, em 14.03.14

Que importa que sejam de ferro
ou sangue as portas?
O medo é quando,
caminhando leguamente a geografia do século,
de mãos estendidas como os que
morreram e teimam,
não alcançamos nenhum
desses limiares, matéria nenhuma
esfingicamente provida
de outra latitude.
Um imenso degrau,
impossível de subir ou descer,
uma mesma sordidez de peles,
um reiterado cálculo
de igualdades,
assim habitamos o território da fábrica:
mesmo de olhos fechados,
é uma máquina que abraçamos,
não como ternura,
não como uma droga necessária
- apenas como o genocídio da
temperatura.

 

 

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publicado às 13:28

Caí no silêncio há vários dias.

por Maria Rita, em 13.03.14

 

 

 

Caí no silêncio há vários dias. Quero falar-te das horas incandescentes que antecedem a noite e não sei como fazê-lo. Às vezes penso que vou encontrar-te na rua mais improvável, que nos sentamos diante do rio e ficamos a trocar pedaços de coisas subitamente importantes: a tua solidão, por exemplo. Mas depois, virando a esquina, todas as esquinas de todos os dias, esperam-me apenas as aves que ninguém sabe de onde partiram.

 

 

 

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publicado às 10:10

Mas podes arder.

por Maria Rita, em 20.01.14

 

 

 

 

Claro que se tem medo que alguém nos entre pelos olhos.

Mas podes arder. Para a tua temperatura, sou mercúrio,
de mão, lábio e sopro. Atravesso-te porque me atravessas e
onde somos corsários rendemo-nos ao encanto da devolução.



 

Tu e eu à porta de um lugar que vai fechar tudo numa árvore.
Aqui onde os minutos são a rua em que nos sentamos toda a
tarde à espera do silêncio, onde o teu corpo pesa a medida
exacta do meu desejo.



 

Sou um animal. Necessito diariamente da transfusão de uma
enorme quantidade de calor. 



 

Tocas-me?

 

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publicado às 14:00

Porque sinto que caminho já no ar

por Maria Rita, em 10.01.14

 

Envolvo-me no silêncio da tua

chegada. O espelho turvo

do teu nome acelera em mim

a evidência deste corpo em

que persisto.

Fazes-me espesso, orgânico,

compacto em torno do absurdo forte

de nos imaginar reciprocamente

despenhados.

Porque sinto que caminho já no ar,

cada passo mais distante,

à espera da tua levitação, que me entendas

a um palmo do peito, enfim caídos

por consequência da rendição.

Entre nós e o mundo há

quinhentos metros

de grito.

 

 

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publicado às 15:19



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